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José Bocca: “O ideal seria que todo professor tivesse a capacidade de contar histórias”

Por Marisa Loures

11/06/2019 às 06h00 - Atualizada 11/06/2019 às 08h26

José Bocca estreia como escritor com “O bicho mais poderoso do mundo”, obra que inaugura coleção da Aletria voltada para histórias de tradição oral – Foto de Fabiana Ribeiro/Cultura

Depois de muitos anos dominando o ofício da contação de histórias, José Boca acaba de estrear como escritor. Ufa! A correria para dar conta da agenda de lançamentos está grande. E ele ainda está se acostumando com as novidades da nova função. Conversamos no dia em que ele tinha um horário marcado com o público de Juiz de Fora para a aula-espetáculo “Da boca para fora, na ponta da língua: a importância da oralidade na sala de aula”. Era 8 de junho. Havia um mês que ele estava fora de casa. Passou por Boa Vista, em Roraima. De lá, foi para Belo Horizonte. Bateu ponto em Ubá e Montes Claros. Em seguida, veio para Juiz de Fora. Nesta semana em que a coluna Sala de Leitura está sendo publicada, voltaria a Belo horizonte. São compromissos que ele fechou graças à divulgação de “O bicho mais poderoso do mundo” (Aletria, 48 páginas).

Nesse conto recriado por ele, tem um gato que sai “à procura do bicho mais poderoso de todos. Sagaz, o felino descobre muito mais do que chifres, rugidos, força e nuances de tamanho.” A ambientação é a savana africana, e os personagens vão surgindo à medida que a história se desenrola. Será que “O bicho mais poderoso do mundo”, ilustrado pela designer Bruna Lubambo, é do jeito que Zé Bocca imaginava quando a história só era conhecida de boca em boca?

“Que coisa linda, que emoção que foi isso. Porque era uma das minhas preocupações, né? Eu conto essa história usando objetos. É o primeiro conto que eu contei na minha trajetória ‘profissional’ como contador de histórias. Vou ressignificando as coisas. O leão, por exemplo, é uma escova. O elefante é uma garrafa pet. E eu tinha muita preocupação com isso. Como é que a ilustração ia fazer esse casamento, manter o ritmo, manter a surpresa? Digo isso porque é um conto cumulativo, os bichos vão se sucedendo, um atrás do outro, tem certo suspense, e a Bruna conseguiu perfeitamente isso. As ilustrações ficaram maravilhosas”, comemora Zé Boca que, com a obra, inaugurou a Coleção Colorín Colorado, da Aletría, cuja proposta é levar ao leitor livros que trazem histórias da tradição oral.

José Bocca é de Votorantim/SP. Além de contador de histórias e, agora, escritor, ele também é ator. Em 2007, foi vencedor do Festival de Humor de Sorocaba, na categoria Causos e Mentiras. E, de 2002 a 2012, coordenou e apresentou o projeto Violas, Causos e Crendices, em sua cidade Natal. A aula-espetáculo em Juiz de Fora foi realizada por meio de uma parceria entre a livraria Ca D’ori, a editora Aletria e a Biblioteca Municipal Murilo Mendes/Funalfa.

Marisa Loures – Você veio a Juiz de Fora, trazendo a aula-espetáculo “Da boca para fora, na ponta da língua: a importância da oralidade na sala de aula”. Sente que a oralidade não tem tido o espaço merecido nas escolas?

José Bocca – Tenho sentido, no decorrer da minha caminhada, certa renegação da oralidade, as pessoas não têm dado a devida importância a ela. Não adianta a gente ter lousas digitais, giz colorido, tablet para cada aluno, se a gente se esquecer dessa primeira comunicação, que é a oralidade. O professor precisa ter a noção de que ele é a atração. Não uma atração espetaculosa, mas no sentido etimológico de “atrair”. E essa atração vai se dar, principalmente, pela oralidade. Isso vale, sobretudo, para os professores que trabalham com as primeiras séries, em que o único meio de comunicação que o aluno vai receber e vai entender é a oralidade. Por isso, a gente vê que lançar mão da contação de histórias, dos contos, das narrativas, é condição primordial para se trabalhar a educação dentro da sala de aula.

“O que faz um contador de histórias? É aquele que transforma em imagens, na cabeça do seu ouvinte, a palavra que sai da sua boca. Esse é o jogo que acontece. E, se agente consegue isso, se a gente consegue transformar a palavra que sai da nossa boca em imagem na cabeça de quem ouve, seja ele uma plateia numa contação de histórias, seja um aluno na sala de aula, a gente já tem um bom caminho progredido.”

– Acredito eu que seria uma capacidade de atração que o contador de histórias possui. O ideal seria que todo professor fosse um contador de histórias?

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Não sei se nessa condição de ser um contador de histórias, mas o ideal seria que todo professor tivesse a capacidade de contar histórias. A Regina Machado, talvez a maior teórica atualmente no Brasil nessa área de oralidade, professora da USP já aposentada e que escreveu o livro “Acordais”, que são fundamentos poéticos sobre a arte de narrar histórias, diz assim: “Não é possível ensinar ninguém a contar histórias, no entanto, todos somos capazes de contar histórias.” O que faz um contador de histórias? É aquele que transforma em imagens, na cabeça do seu ouvinte, a palavra que sai da sua boca. Esse é o jogo que acontece. E, se agente consegue isso, se a gente consegue transformar a palavra que sai da nossa boca em imagem na cabeça de quem ouve, seja ele uma plateia numa contação de histórias, seja um aluno na sala de aula, a gente já tem um bom caminho progredido.

– Depois de tantos anos de experiência como contador de histórias e ator, agora, você estreou como escritor com a publicação do livro “O bicho mais poderoso do mundo”. Por que esse lançamento neste momento e o que representa a publicação de um livro para a sua carreira?
Antes de o lançamento realmente acontecer, não tinha noção da grandeza disso. Fui desafiado pela editora Aletria, e ainda não caiu a ficha de que sou escritor. Ainda me considero um contador de histórias. Recentemente, participei da Bienal de Ubá. Já participei de muitas feiras de livro, e é a primeira da qual volto para casa com um crachá escrito “escritor”. Ainda não estou adaptado a isso, estou trabalhando isso na minha cabeça. O livro está fazendo um sucesso enorme, porque a editora Aletria é muito caprichosa. Recomendo a todos que têm filhos, a quem está na sala de aula, a quem preza pelo universo de literatura juvenil, literatura da narração de histórias, as publicações da Aletria. Sou contador de histórias, não trabalho muito bem com essa coisa digital, meu trabalho acontece basicamente quando estou ao vivo. Tenho na minha cidade uma coluna na rádio em que conto histórias uma vez por mês. Mas, fora isso, meu trabalho funciona ao vivo. Tenho que estar lá para que a pessoa me ouça e aconteça. E, com o livro, percebi que isso pode acontecer sem que eu precise estar presente. Tenho viajado o Brasil inteiro, tenho notícias do meu livro do Rio grande do Sul ao Rio grande do Norte. Ele alavancou minha carreira. Hoje percebo que há status de escritor quando ando nos lugares, e as pessoas apontam: “ah, esse é o autor”. Percebi também que nós, contadores de histórias, geralmente, em eventos literários, somos segunda classe: “vai ali entreter as crianças enquanto os autores que são sérios vão trabalhar.” Não é nem uma coisa que seja de propósito, é inerente. O tratamento dado ao autor, o status de um autor é maior do que o do contador de histórias. Ainda não me considero um autor, sou um contador de histórias que publicou esse livro. Sou um leitor voraz desde menino, aprendi a ler praticamente sozinho, de 4 para 5 anos de idade, lendo revistas lá de casa, lendo bula de remédio e o folheto “O domingo”, da Igreja Católica. Estou muito feliz e satisfeito com o que “O bicho mais poderoso do mundo” está trazendo para a minha vida.

– Com este livro, você inaugura a coleção Colorín Colorado, da Aletria, que tem como objetivo levar ao leitor uma sequência de livros que trazem os contos de tradição oral. Qual a importância dessa iniciativa para essas histórias que a gente só conhece de boca a boca?
Acho muito valoroso. A proposta da Aletria é o caminho inverso do que, geralmente, nós fazemos. O que nós fazemos como contadores de histórias? Nós, geralmente, ouvimos ou lemos no livro uma história, e, depois, nós a contamos. A proposta da Aletria é pegar uma história que já está adaptada à nossa boca, que já tem a embocadura, e passá-la para o papel, sem perder o ritmo da narrativa, que, para mim, é o elemento mais importante de uma narração. Todo mundo que tem lido “O bicho mais poderoso do mundo” tem me dito assim: “nossa, a história está pronta para contar.” Porque, normalmente, a gente tem que fazer uma adaptação, né? Eduardo Galeano (escritor) dizia que a palavra falada é diferente da palavra escrita. Da mesma forma que a palavra ouvida é diferente da lida, porque a falada tem música, tem melodia. E aí, ás vezes, a gente tem que dá essa melodia e ritmo na voz, diferente do que está escrito. E “O bicho mais poderoso do mundo” já tem isso, porque já era uma história contada, a gente simplesmente adaptou alguns termos.

– Foi difícil transpor para o papel?
Difícil não. Mas tem esse garimpo de quem trabalha com palavra escrita. Quem escreve sabe dessa coisa, que é como um lego, você tem que ter a pecinha exata. Então, para mim, que não estou muito habituado… No processo da narrativa, vou falando, colocando as coisas ali. Às vezes funciona, e eu mantenho. Às vezes não funciona, e eu tiro. Sou muito crítico em relação à minha escrita. Até por isso, talvez, eu não tenha publicado até então. Eu leio e releio.

“O bicho mais poderoso do mundo”

Autor: José Bocca

Editora: Aletria (Aletria, 48 páginas).

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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