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Tom Farias: “Carolina ainda continua assombrando a sociedade brasileira”

Por Marisa Loures

25/06/2019 às 12h24 - Atualizada 25/06/2019 às 12h26

Convidado do Fliaraxá, o escritor e jornalista Tom Farias busca desmistificar Carolina de Jesus no livro “Carolina: uma biografia” – Foto de Marta Azevedo

No dia em que foi assinar o contrato com a Livraria Francisco Alves para a publicação de “Quarto de despejo: diário de uma favela”, Carolina de Jesus “acordou cedo, de posse de um saco catou latas, ferros e vidros e uns metais. Vendeu tudo por 22 cruzeiros. Comprou 12 de pão. As crianças estavam com fome e Carolina não tinha nada para dar de comer a elas”. Depois da assinatura, saiu de lá com 2 mil cruzeiros e decidida a comprar carne para fazer bife para o pequeno João. Neste dia, o jornalista Audalio Dantas estava cumprindo a promessa feita no primeiro encontro com a autora: achar um editor para publicar os textos do diário que ela escrevera.

A imprensa estava presente para dar informações sobre a obra, cuja tiragem inicial foi de 10 mil exemplares, esgotados em uma única semana. O livro tornou-se um fenômeno. Foi traduzido para mais de 14 idiomas. Com ele, a mulher pobre, nascida, em 1914, em Sacramento (MG), uma localidade que ainda mantinha a lógica da escravidão, foi alçada à condição de celebridade. No entanto, ainda assim, Carolina de Jesus era tratada como “um ser estranho”, exótico. Despertou inveja. Seu livro era objeto de decoração nas estantes, e escritores viravam as costas para ela. Provou o gosto do sucesso, mas morreu na miséria e em relativo ostracismo, no ano de 1977.

“Carolina de Jesus sobreviveu ao sistema porque também soube manipular este sistema. Em poucos anos, saiu da condição de totalmente invisibilidade e miserabilidade, para o cume da fama e do dinheiro. Aquelas mesmas pessoas que a rejeitavam socialmente, hipoteticamente, passaram a venerar. É emblemático saber que Carolina passa a ser vista como elemento social a partir do seu livro: os convites para os banquetes, as hospedagens nos hotéis de luxo, os vestidos caros e as joias, o convívio com homens públicos – de príncipes a presidentes da República. Carolina se transformou num selo social. Estar com ela era sinal de resignação, boa conduta cristã. Sobre a invisibilidade, Carolina chegou a ser vista como alternativa de poder: seu nome foi lembrado para ser vice em chapas para prefeito, para candidaturas a deputados e mesmo de embaixadora. Para quem até às vésperas do lançamento do seu livro famoso era vista como ‘mendiga e suja’. Era uma revolução”, conta o jornalista e escritor Tom Farias, autor de “Carolina: uma biografia” (Malê, 402 páginas), um dos convidados do Festival Literário de Araxá, realizado neste último fim de semana.

Nas páginas do livro, Farias voltou à infância de Carolina, aos tempos em que trabalhou como doméstica, ao cotidiano no Canindé, em São Paulo, à saída da favela, e à entrada dela na vida intelectual, até chegar à sua morte. Diferentemente do que muitos sabem, muitos anos antes de “Quarto de despejo”, ela já escrevia. “Carolina: uma biografia” traz a Carolina de Jesus que Tom Farias conheceu durante a pesquisa para a escrita da obra.

“Uma mulher extraordinária, uma escritora profunda e fantástica. Pude aprofundar meu conhecimento sobre ela a partir dos seus escritos, não só os textos vertidos em diários, mas os de ficção, embora menos conhecidos, e, sobretudo, nos de poesia, menos famosos. Outra coisa foi a Carolina militante política com o viés feminista/feminino, amante da reforma agrária e do fim das favelas. Carolina foi uma voz potente no campo da denúncia social e racial, marcando, sem receio, sua presença na cena brasileira, especialmente dos anos de 1960.”

“Sua escrita vai mostrar, de forma fabular, poética e sociologicamente falando, que ao ter o que dizer, a favela é o lugar também do pensamento, da reflexão, da filosofia, da ação. Portanto, era natural o boicote à Carolina, sobretudo os escritores, ou seja, homens e brancos. Nesse sentido, falar fora da ‘caixinha’ era uma atitude enlouquecida, fora dos padrões sociais aceitos.”

Marisa Loures – A elite intelectualizada teria feito um boicote à Carolina de Jesus. Ela não foi tratada à época como uma mulher inteligente, chegando a ser taxada de louca no fim da vida. No entanto, hoje, ela vem cada vez mais sendo estudada na academia. Estão dando a ela o lugar que ela merece na nossa literatura?

Tom Farias – Carolina ainda continua assombrando a sociedade brasileira, desde que publicou o best-seller “Quarto de despejo: diário de uma favela”. Esse termo “favela”, aliás, lembra bem um lugar da memória do país que demanda uma tipologia social de uma certa gente, de uma certa estirpe social, que tem muito que ver com as populações marginalizadas. As favelas refundam, na sua estética, àqueles mocambos do quilombismo, os refúgios dos negros escravizados. Ambos, favela x quilombo, sempre foram lugar de receio, de medo da sociedade tida como culturalmente super. Carolina, como moradora de favela e tendo na origem familiar raízes africanas, pelo lado do avô, quebra a espinha dorsal dos paradigmas eurocêntricos. Sua escrita vai mostrar, de forma fabular, poética e sociologicamente falando, que ao ter o que dizer, a favela é o lugar também do pensamento, da reflexão, da filosofia, da ação. Portanto, era natural o boicote à Carolina, sobretudo os escritores, ou seja, homens e brancos. Nesse sentido, falar fora da “caixinha” era uma atitude enlouquecida, fora dos padrões sociais aceitos.

– Carolina de Jesus era vista como “um ser estranho”, exótico. No entanto, “Quarto de despejo” vendeu muito. O que explica o sucesso desse livro em se tratando de uma escritora que não era reconhecida e era boicotada por muitos?

Nos anos de 1930 a 1970, a mulher intelectual era vista assim, de forma “exótica”. Da batalha para votar e ser votada ao direito de usar calça comprida – ambos vistos como coisas de homem. Obviamente tudo isso tem uma dose cavalar quando se pensa em uma mulher que escreve e fala pela escrita como Carolina de Jesus: ela mora numa favela, é negra, mãe solteira de três filhos, além de tudo, não possui profissão e escolaridade para enfrentar o mundo acadêmico, esteio da elite. Neste aspecto absorver a produção de Carolina se tornou uma comiseração própria dos que apenas a tinham no campo da curiosidade, não da literatura. Isto perdura até hoje. Era inimaginável, para a elite letrada, branca e masculina, ter a favelada Carolina de Jesus entre os seus pares. Se o escritor mais simples não a aceitava, como pensar que a Academia não faria ainda pior.

– Como a família vê a trajetória de Carolina de Jesus: de uma mulher que era taxada de analfabeta e favelada a uma escritora reconhecida 40 anos depois de sua morte?

A conquista de Carolina no universo social-literário ajudou a alavancar a família para outro estrato social. Então ainda hoje Carolina é o principal produto de manutenção desse status social da família Jesus. Dos três filhos de Carolina (João José morreu em 1977, logo depois da mãe, era um jovem adulto muito doente, consequência dos anos de favela; José Carlos, morreu em 2016, vítima de atropelamento em SP, onde vivia; e Vera Eunice, a personagem de abertura de “Quarto de Despejo”, que é professora da rede pública paulistana). Além de sua obra, este é o maior legado deixado por Carolina.

– Em uma entrevista à Revista Cult, você diz que “Carolina enfrentou, enfrenta e vai enfrentar eternamente o preconceito linguístico.” O fato de ela ser reconhecida hoje, ser estudada na Academia, não faz com que essa questão seja superada? Você acredita que ela será sempre vista como uma escritora analfabeta e favelada?

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O preconceito linguístico vai além da questão social e estética. É o caráter do grupo político e econômico dominante no Brasil. De mais a mais, Carolina está sendo estudada, não aceita. Há uma diferença enorme nesse pressuposto. Trata-se do paradoxo do axioma, não sei se me fiz entender. A Academia ainda hoje não sabe a qual cânone literário a escritora mineira Carolina Maria de Jesus pertence. Mas se quisesse, já saberia. Isto posto, nos remete a outro agravante: não há negras/os na Academia alçados a estudar produções como a de Carolina de Jesus. É como se Carolina continuasse a ser vista por quem é “de fora”. Hoje gênero e ancestralidade dizem muito desse lugar de fala que a sociedade reclama. Sendo uma voz potente, reclamadora do seu lugar na sociedade, o incômodo Carolina continua sobressaltando mesmo os que a leem com os olhos dos dias atuais. Ou seja, o grito por justiça social de Carolina continua vivo, enquanto as injustiças sociais continuam perenes, seja na alta dosagem do preconceito de raça e classe, seja no extermínio da população negra, sobretudo jovem, seja no feminicídio – que atinge, violentamente, a maioria das mulheres negras.

“Enquanto este país não se assumir como nação única, enquanto as pessoas (branca, seja dito) não se importarem que, no seu ambiente corporativo de trabalho, nas universidades, no mundo da cultura, numa simples viagem de avião, não haja a presença de negros em quantidade no assento ou comando, enfim, enquanto não houver negros sentando-se democraticamente em situação de igualdade, salarial e de poder, enquanto essa sociedade não se rebelar contra tudo isso, não exigir chefias negras, não exigir acadêmicos negros, não exigir que um negro comande este país, vamos continuar vivendo num mundo de fantasias.”

– Você acaba de participar de um festival que tem Machado de Assis como patrono. Foi convidado para falar sobre Carolina de Jesus. Os holofotes estavam sobre dois autores negros da nossa literatura. O que significa um festival como esse para um país que não aceita o negro na posição de protagonismo intelectual?

Como falei no festival, o caminho, na verdade, ainda é um atalho cheio de pretensões de pompa e circunstância. Não convém ter carro de última geração para navegar em estradas velhas, esburacadas. Por alguma razão, acho que por suas origens africanas, Carolina foi chamada de a “Machado de Assis de saia”. No caso do nosso país, continuamos a olhar com as vistas do cego: só enxergamos sombras. Enquanto este país não se assumir como nação única, enquanto as pessoas (branca, seja dito) não se importarem que, no seu ambiente corporativo de trabalho, nas universidades, no mundo da cultura, numa simples viagem de avião, não haja a presença de negros em quantidade no assento ou comando, enfim, enquanto não houver negros sentando-se democraticamente em situação de igualdade, salarial e de poder, enquanto essa sociedade não se rebelar contra tudo isso, não exigir chefias negras, não exigir acadêmicos negros, não exigir que um negro comande este país, vamos continuar vivendo num mundo de fantasias. E que fantasias? As de que somos uma democracia racial de fato, as de que não temos preconceitos de raça, as de que o fenômeno social do extermínio da população negra e da exclusão são apenas parte do sistema capitalista, ou parte de um problema gerado pelo próprio negro, que é indolente, que não estuda, que só quer samba, futebol e cachaça.

– Na última parte do livro, há o relato do dia em que Carolina de Jesus foi assinar contrato com a Livraria Francisco Alves para a publicação de “Quarto de despejo”. Os filhos estavam com fome e uma das alegrias dela foi poder comprar bife para os filhos com o dinheiro que recebeu. Naquele momento, ela acreditava no valor literário da obra dela, no que significava aquela assinatura de contrato, ou só queria matar a fome dos filhos?

Algo que moveu a vida de miséria de Carolina foi acreditar sempre que poderia ter tudo mudado através da sua literatura. Em 1960, Carolina perfazia 20 de vida literária, estreada em jornal em 1940. Ao lado da luta contra a fome, Carolina lutava também por um lugar ao sol da literatura. E mais, ela tinha consciência da sua realidade, tinha noção do preconceito racial que moviam contra ela, mas também tinha conhecimento que estava acima da média nacional do nível intelectual das mulheres em geral, e das mulheres brancas. Carolina não tinha, como muitos, muitas alternativas para sobrevier: ou era acreditar no seu potencial de mudança ou o suicídio, tema tão explorado por ela nos seus escritos. O desespero e o desamparo levaram Carolina a acreditar na única ferramenta disponível para transformar revolucionariamente a realidade de sua vida: a escrita.

“São milhares de livros vendidos em todo o mundo. Que mulher preta alcançou tudo isso apenas com o talento? Conceição Evaristo, somente aos 70 anos, vem conquistando a glória. Carolina se arrojou para que uma Conceição surgisse, assim como Conceição vem abrindo caminhos para outras mulheres negras escritoras. A glória é um bom estímulo para a criação; já a glorificação é traiçoeira. Carolina de Jesus esteve nas mãos de uma e de outra.”

– Em um artigo assinado meses depois da morte de Carolina de Jesus, Audálio Dantas disse que queria que ela parasse. Ele escreveu o seguinte: “Como voz, intérprete das angústias faveladas, ela era um gênio. Mas tinham-lhe dito que ela era um gênio literário, uma espécie de fenômeno, e Carolina acreditou. Tanto que publicou romance e um livro de provérbios, pagando a edição a alguns espertos”. O que você pensa sobre as palavras dele? Concorda que era o momento de ela parar?

Audálio Dantas, foi a um só tempo a tábua de salvação de Carolina, a outro tempo, a sua rampa de acesso ao abismo. Não é que ela tenha se jogado, não era boba para isso. Na verdade, ela não estava preparada psicologicamente para viver sem ele. Algumas vezes ela chegou a dizer isso. Outras, ele reconheceu isso nela também. Eram temperamentos difíceis, diferentes e únicos. Carolina não fazia a menor ideia de que ia alcançar tanta fama e cobiça. Ela foi vítima da fama. Depois de tantos anos rejeitada, passou a ser alvo do que Audálio chamou de “corja de espertalhões”. Estes não quiseram apenas se aproveitar de Carolina do ponto de vista da glória e do dinheiro, mas tirar do seu caminho tudo o que pudesse impedir esse acesso. Audálio era um desses. Era o guardião de ferro. Em alguns casos exagerou; na maioria, foi precisão. A casa comprada, a poupança forçada num grande banco da cidade, o ato de pensar antes de falar e quando falar. Tudo isso teve o dedo de Audálio. Mas essas inúmeras pessoas minaram irremediavelmente a amizade e a relação dos dois, relação que quase virou um furtivo romance (mais por parte da Carolina). Carolina via no Audálio um protetor, um amigo, e ele a via como a “irmãzinha”. Então foi pensando nela, na sua angústia, na sede de uma fama que não podia mais voltar, que Audálio teria escrito esse texto acima, logo ele, apartado dela desde 1965, ou seja, por sete anos. Numa entrevista de dezembro de 1976, Carolina vai reconhecer o papel do jornalista em sua vida. E o agradece. Afinal, Carolina está hoje em 16 idiomas e 46 países. Foi best-seller em 11. São milhares de livros vendidos em todo o mundo. Que mulher preta alcançou tudo isso apenas com o talento? Conceição Evaristo, somente aos 70 anos, vem conquistando a glória. Carolina se arrojou para que uma Conceição surgisse, assim como Conceição vem abrindo caminhos para outras mulheres negras escritoras. A glória é um bom estímulo para a criação; já a glorificação é traiçoeira. Carolina de Jesus esteve nas mãos de uma e de outra.

“Carolina: uma biografia”

Autor: Tom Farias

Editora: (Malê, 402 páginas)

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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