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O silenciamento é mais cruel do que a culpa

Por Gabriel Ferreira Borges

06/08/2019 às 07h12 - Atualizada 06/08/2019 às 07h12

Apenas uma bandeira a meio mastro no Ninho do Urubu remói diariamente o episódio mais trágico em 124 anos de história do Flamengo. Diante da morte de dez garotos sob sua custódia, restava, ao clube, enquanto instituição, uma única postura, para além das responsabilidades legais: zelar pela memória das vítimas e, por consequência, pelas suas famílias. O luto, por si só, seria insuficiente, como, por fim, foi. O rubro-negro, entretanto, renunciou à própria história. Se não o Flamengo por negligência, o clube tem, por hombridade, a responsabilidade pela vigília por Arthur, Athila, Bernardo, Christian, Gedson, Jorge Eduardo, Pablo Henrique, Rykelmo, Samuel e Vítor Isaías.

Ora, certamente há de se fazer a distinção entre os administradores do Flamengo e a história que a entidade simboliza. Porém, enquanto clube social, o Flamengo é narrado pelas ações de quem o administra. Embora o presidente Rodolfo Landim tenha sido empossado somente em dezembro passado, sua administração já expôs a cruzada contra os próprios valores da instituição a que se propõe. A conduta da presidência desde o incêndio de 8 de fevereiro é o episódio mais simbólico de tal empreitada – cujo caminho despreza, inclusive, os rubro-negros Stuart Angel e Marielle Franco. Liderado por Landim, o Flamengo mantém para com as famílias das vítimas uma postura mesquinha e sórdida; característica a tecnocratas.

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A sinalização dada às próprias famílias, bem como à opinião pública, é de que, dos jovens em formação nas categorias de base, interessam somente os milhões de eventuais vendas. Ainda aos 16 anos, Vinícius Júnior, sem ser conhecido pela torcida, fora vendido por mais de R$ 190 milhões. Aos 21, fora a vez Lucas Paquetá, por R$ 150 milhões. Por fim, Léo Duarte, aos 23, por cerca de R$ 50 milhões. O sintoma não acomete somente o Flamengo, deveras. Entretanto, o Flamengo, como a torcida reconhece, é fiador de um pacto histórico, forjado em 1981, com garotos mirrados como Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Andrade e Mozer. Para os rubro-negros, somente o jogador formado no Ninho, como os próprios torcedores, sente o Flamengo.

Mas o Flamengo preteriu o diálogo para buscar acordos de indenizações por vias judiciais. Como se o clube se eximisse da responsabilidade de garotos sob sua confiança. Há uma questão simbólica transcendental a quaisquer mesas de negociação. No entanto, tal alternativa nunca foi real, dada a insensibilidade dos famigerados executivos. O Flamengo não pode tentar se esquecer dos dez garotos mortos em 8 de fevereiro. O silenciamento é mais cruel do que a culpa.

Gabriel Ferreira Borges

Gabriel Ferreira Borges

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