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Outro lado que flutua

Por Júlia Pessôa

09/06/2019 às 07h00 - Atualizada 07/06/2019 às 16h58

Eu poderia escrever mais uma coluna sobre feminismo. Sobre as mil formas de violação de nossos corpos, nossa saúde mental, emocional e sobre os recortes que fazem tais crueldades ainda piores para algumas de nós. Eu poderia, caso tivesse tempo, falar mais uma vez sobre a queda livre do Brasil no que tange à nossa realidade política econômica. Mas é impossível acompanhar todos os fatores que nos impulsionam cada vez mais longe num buraco que parece não ter fundo. Mas hoje não quero falar sobre o lado que pesa, mas sobre o que flutua, indissociáveis e onipresentes em nossas vidas.

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Não é coach quântico, autoajuda, espiritualidade, nada. O “conceito” vem de uma música do Otto, que ouço agora enquanto esboço estas palavras e que habitou meus fones de ouvido (no repeat) durante um bom tempo. Diz o ruivo: “há sempre um lado que pesa/ e outro lado que flutua”. Durante dias e bons e ruins da vida, blindei meus ouvidos com a canção e deixava que ela fosse a trilha sonora enquanto ia trilhando meus passos pela cidade. O que não sabia era que, de uma forma de outra, eu estava presa no lado que pesa, pensando nas pequenas e grandes coisas que dão errado na vida, no país, no mundo.

Pode ser efeito do tempo passando, da reatividade das coisas, ou de um rush de otimismo que vez em quando acerta até os mais céticos, como eu. Mas aprendi a ver e viver o lado que flutua, apesar de tudo que pesa diariamente, sobre nossas vidas e as menos privilegiadas que as nossas. Só que não se permitir flutuar é um passe para a loucura, para o adoecimento. Então, por uns segundinhos que seja, eu tenho me permitido flutuar. Numa mensagem inesperada dando boa noite. Num abraço demorado, antídoto contra saudades prolongadas. Em sorrisos compartilhados. Em vozes que me dizem mil coisas incríveis, mas sobretudo o quanto temos sorte de termos nos encontrado nesses caminhos tortuosos da vida. Em piadas bestas que fazem a gente gargalhar escandalosamente onde quer que seja. Em conquistas divididas que desembocam, de minha parte ou de outrem: “nossa, tô feliz demais por você”. Em pequenezas outras mil, que fazem a grandeza da vida. Que nosso GPS interno nunca nos distancie deste lado, o que flutua, ainda que por microssegundos. Porque não se enganem: o outro lado, o que pesa, é um workaholic inveterado. Otto mesmo alerta, na mesma canção: “não se esqueça, dói”. Flutuemos, impertinentes.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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