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Pela educação

Por Júlia Pessôa

18/05/2019 às 17h26 - Atualizada 18/05/2019 às 17h27

Embora eu seja ateia no que tange a crenças futebolísticas e, portanto, tenha pouca memória para eventos e causos que envolvam o assunto, lembro-me claramente da copa de 2014 e de seu prólogo e epílogo. “Queremos educação padrão Fifa”, diziam muitos dos cartazes erguidos em protesto ao evento – muitos deles pelas mesmas pessoas que ganharam convites para camarotes de jogos nos estádios contra os quais esbravejaram. E apesar de eu gostar bastante de um furdunço, uma festa, um rolê, um bochicho, de samba e de rua, também não sou lá muito de carnaval. Mesmo assim, tenho fresquinha na cabeça a lembrança de gente resmungando na internet sobre como carnaval era festa de vagabundo, de promiscuidade, como bem reiterou até o presidente. E vi, várias vezes, gente vendo a multidão feliz em seus bloquinhos e jogando água no chope alheio: “imagina tanta gente assim na rua protestando por educação de qualidade”. Pois bem.

No último 15 de maio mais de um milhão de pessoas – só nas capitais – tomaram as vias públicas justamente protestando contra cortes que afetam diretamente o ensino e a pesquisa do país, ou seja, pela educação. E, de uma hora pra outra, a educação deixa de ser a moeda que importa para muita gente, que vê manifestação popular como coisa de “esquerdopata vagabundo” – a menos que seja batendo panela, vestindo camisa da seleção e fazendo carreata. Acho um mérito enorme assumir mudanças de opinião bruscas, coisa de gente que tem brio mesmo. Mas será que essas pessoas entendem que ser a favor dos cortes é ser contra a educação ? Ou nunca foi pela educação? Ou é pela educação “dos meus e que se dane o resto”?

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No país em que as pessoas têm prazer em fazer pouco de quem fala errado por não ter tido estudo, mas acha preconceito linguístico as piadas com “conje” e “novaiorquinis”, eu me pergunto sinceramente o que se entende por educação. É difícil chegar a um conceito fechado de algo que tem tantas linhas de atuação, tantas desigualdades e, ao mesmo tempo, tantas possibilidades. Mas é muito fácil ver quando a educação faz diferença. Quando alguém exibe o primeiro diploma de que se orgulha na vida – seja de alfabetização ou de ensino superior, e seja em que época da vida for. Quando o ensino permite que alguém faça alguma coisa que sempre quis pela primeira vez na vida. Quando a primeira pessoa de gerações e gerações de uma família inteirinha se forma em uma faculdade. Quando vejo minha amiga Dudu, que acorda às 5h40 para dar aula, dizendo: “amiga, hoje dei uma aula ótima, as crianças adoraram e fizeram tudo direitinho”. Quando descubro que dívidas históricas são impagáveis, mas a UFJF tem cerca de 40% de pessoas negras em sua população estudantil, e 60% de mulheres. E em todas as outras vezes que vejo uma realidade mudar de uma maneira que não seria possível senão pela educação.

Quando penso em tudo que é “pela educação”, sei direitinho no que estou pensando. Mas jamais vou entender sobre o que muita gente está falando.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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