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20 apresentar 20 álbuns de 1989 – Parte 3

Por Júlio Black

02/10/2019 às 07h08 - Atualizada 02/10/2019 às 07h18

Oi, gente.

Chegamos à terceira e penúltima parte de nossa série sobre álbuns clássicos lançados em 1989, e percebi uma coisa ao terminar de escrever as resenhas retrospectivas. Não se trata apenas de relembrar artistas de estilos diferentes, mas que viviam momentos totalmente peculiares. É o cantor e compositor que tem moral para fazer tudo sozinho em seu álbum de estreia; a banda que dá a volta por cima depois de uma perda trágica; a cantora pop que consolida sua carreira em um trabalho inspirado; os branquelos do hip-hop que engrenam a quinta marcha em direção à contramão do sucesso; e a banda nacional que encerrava o seu ciclo de maior criatividade.

Com suas trajetórias distintas, Lenny Kravitz, B-52’s, Madonna, Beastie Boys e Titãs gravaram álbuns bons de ouvir três décadas depois de lançados, e que resgatamos neste nosso espaço. Lembrando ainda que eles estão lá na nossa playlist no Spotify, “…E obrigado pelos peixes”, junto a uma turma (Uma Thurman?) que sempre está presente em nossos ouvidos.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

B-52’S, “COSMIC THING”
“Cosmic Thing” não é a reinvenção da roda. É muito legal de se ouvir, claro, mas especial principalmente por marcar a volta por cima de uma das bandas mais alegres dos anos 80 que, por essas ironias do destino, precisou lidar com uma tragédia. Em outubro de 1985, poucos meses depois de tocar no Rock in Rio, Ricky Wilson, principal guitarrista e compositor do grupo, morreu de complicações decorrentes da Aids. Tanto que “Bouncing off the Satellites”, lançado no ano seguinte, passou praticamente despercebido.

Daí que ninguém esperava muita coisa do B-52’s quando a banda lançou o seu maior sucesso comercial, um álbum totalmente alto astral. Com produção de Nile Rodgers, do Chic, e Don Was, “Cosmic Thing” tem alguns dos maiores sucessos do grupo de Athens, Georgia (terra também do R.E.M.): “Roam”, “Love Shack” e “Channel Z”, que não fazem feio perto de uma “Rock Lobster”.

Infelizmente, o trabalho seguinte, “Good Stuff” (1992), não manteve o mesmo pique – Cindy Wilson, inclusive, havia pulado fora do barco -, e foram mais 16 anos até a banda gravar algo novo. O encanto se perdeu com o tempo, mas pelo menos o B-52’s teve a chance de mostrar que a alegria pode amenizar a dor.

TITÃS, “Õ BLÉSQ BLOM”
O quinto álbum dos Titãs encerra o que pode ser considerada a trilogia que marcou a fase mais criativa do então octeto paulistano, iniciada com “Cabeça Dinossauro” (1986) e “Jesus não tem dentes no país dos banguelas” (1987). Com a inclusão de influências nordestinas, mais destaque para as batidas eletrônicas, “Õ Blésq Blom” ainda mantinha muito do estilo tradicional do grupo, como o rock pesado, sensibilidade pop, o revezamento de vocalistas e compositores e as letras inspiradas.

Para quem viveu o final dos anos 80, não é difícil lembrar das músicas que faziam sucesso tanto nas festas quanto nas rádios. Tem para todos os gostos: “Miséria”, “Flores”, “Deus e o Diabo”, e preferidas dos fãs como “Racio símio”. Da parte deste que escreve, minhas preferidas são “O pulso” e “O camelo e o dromedário”, que tocaram e muito nas FMs de então.

Mesmo hoje, 30 anos depois, “Õ Blésq Blom” continua sendo um senhor disco.

 

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MADONNA, “LIKE A PRAYER”
Seguinte: nunca fui fã da Madonna. Não é minha praia. Sempre achei que ali havia mais forma que conteúdo. Uma espécie de oportunismo capitalista-musical, de saber embarcar na onda do momento, do que poderia causar, chocar, e depois partir para outra. O que não diminui o fato de que a material girl foi importante, sim, para mudar costumes, posturas, ajudar muito jovem a entender que ser diferente não era errado. Só que ela sempre foi esperta o suficiente para lucrar com isso.

Ressalvas feitas, vamos lá. “Like a prayer” é um dos grandes álbuns da música pop dos anos 80. A exemplo de “Raw like sushi”, de Neneh Cherry, que relembramos na semana anterior, o disco tem algumas batidas e sintetizadores que entregam a idade, mas isso não diminui o barato de ouvir suas onze canções em pleno 2019.

Para começar, temos a faixa-título, a minha preferida da loira ambiciosa até hoje. Que coisa linda de ouvir, essa mistura do sagrado com o profano, aquele coral gospel, uma celebração religiosa da sexualidade, sensualidade – algo que o sensacional videoclipe dirigido por Mary Lambert deixou ainda mais escancarado. Além de “Like a prayer”, o álbum tem outros hits ainda hoje marcantes na música pop: “Express yourself”, “Cherish”, “Promise to try”, “Keep it together”, “Oh father” e “Pray for spanish eyes”.

BEASTIE BOYS, “PAUL’S BOUTIQUE”
Vocês são três branquelos que venderam dez milhões de cópias de um álbum de rap/hip-hop com letras sobre bebedeiras, farras, garotas e outros assuntos que a molecada branquela curte, jogando no liquidificador batidas pesadas e riffs de guitarra. Teoricamente vocês aproveitariam para repetir a fórmula no trabalho seguinte, certo?

Errado! Pelo menos em se tratando dos Beastie Boys. “Paul’s Boutique” foi considerado um fracasso comercial na época, mas o tempo mostrou que o segundo álbum do trio é um dos trabalhos mais marcantes do hip-hop, com Michael Diamond (Mike D), Adam Yauch (MCA) e Adam Horovitz (Ad-Rock) cheios de disposição para mostrar que não eram one hit wonders, ou apenas uns magricelas que tiraram a sorte grande com letras pueris.

Mas “Paul’s Boutique” não seria revolucionário sem os Dust Brothers na produção. Ao toparem a missão de fazer um álbum mais criativo que comercial, E.Z. Mike (Michael Simpson) e King Gizmo (John King) construíram as canções quase exclusivamente com samples – são nada menos que 105 no total, passando por Led Zeppelin, Afrika Bambaataa, Ramones, Sugarhill Gang, Pink Floyd, Isaac Hayes, Run-DMC, Elvis Costello, Malcolm McLaren, Boogie Down Productions, The Isley Brothers e mais um caminhão de gente.

Para quem é neófito no hip-hop, músicas como “Hey ladies”, “Shake ypur rump”, “Looking down the barrel of a gun” e a alucinante “B-Boy Bouillabaisse” (nove músicas em uma, com 12 minutos de duração) vão abrir a cabeça do jovem padawan no universo do rap. Essencial é pouco para essa maravilha.

Tô certo ou tô errado, Pablo Duca?

LENNY KRAVITZ, “LET LOVE RULE”
Lenny Kravitz pode não acertar todas as vezes, mas é um cara que sabe o que quer, faz o que quer. Enfim, tem personalidade. Basta lembrar de seu álbum de estreia, em que tocou praticamente todos os instrumentos e escreveu a maioria das letras – a atriz Lisa Bonet, então sua esposa, assina “Fear” e é coautora de “Rosemary”. E não fez feio ao comandar o barco sozinho.

“Let love rule” é uma bem-costurada trama de rock retrô, psicodélico, com doses generosas de soul music, rhythm and blues e alguma coisa de funk, aliadas a letras sobre amor, paz, positividade, de quem acredita que é preciso deixar o mais nobre dos sentimentos (o amor, claro) governar o mundo. Não à toa, músicas como a faixa-título, “I build this garden for us”, “Freedom Train”, “My precious love” e “Sittin’ on top of the world” confirmam o potencial então desconhecido do rapaz, que depois foi lapidado em álbuns como “Mamma said” (1991) e “Are you gonna go my way” (1993).

Júlio Black

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