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20 apresentar 20(+5) álbuns de 1989 – Parte 4

Por Júlio Black

09/10/2019 às 07h08 - Atualizada 09/10/2019 às 07h22

Oi, gente.

Este deveria ser o último capítulo da série que relembra os clássicos lançados em 1989, mas tivemos uma pequena mudança de planos. O motivo? Fui dar uma espiada bem inocente na minha cópia de “1001 álbuns para ouvir antes de morrer”, e calhou de encontrar algumas obras-primas que escaparam à minha pesquisa semanas atrás. Aí deu aquela dor na consciência, a dúvida sobre o que fazer, e três opções: A) Deixo como está? B) Troco alguns dos álbuns da última semana? C) Faço uma edição extra?

Pois as respostas foram B e C. Passei para a semana seguinte um dos álbuns, adiantei outro, e eis que teremos então 25 álbuns de 1989 em retrospectiva, e não mais os programados 20 – e olha que (lembra?) não precisamos colocar “Doolittle”, dos Pixies, nessa lista. Por isso, a última – não mais penúltima – parte da série buscou em nossos arquivos auditivos-emocionais os clássicos do Nine Inch Nails, 808 State, Faith No More, De La Soul e New Order.

E reforçando: toda essa turma está em nossa playlist do Spotify, “…E obrigado pelos peixes”, junto com outros tesouros musicais.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

FAITH NO MORE, “THE REAL THING”
Assim como outras bandas dos anos 80 (Red Hot Chili Peppers, R.E.M.), a persistência do Faith No More valeu a pena. Depois de gravar dois álbuns de repercussão quase zero, “We care a lot” e “Introduce yourself”, a banda chutou o então vocalista Chuck Mosley e se tornou um fenômeno ao recrutar o maluco, carismático e genial Mike Patton, que na época tentava ganhar a vida com a insana Mr. Bungle.

Com a parte instrumental já pronta, Patton chegou, escreveu as letras, gravou os vocais, e o resultado foi o sensacional “The real thing”. Com uma mistura de heavy metal, influências de Black Sabbath, funk, punk, rap, rock progressivo, o grupo alcançou o sucesso nos Estados Unidos e influenciou uma penca de bandas do chamado metal alternativo, nu metal, funk metal e outros rótulos que os críticos adoram criar.

No Brasil, então, o Faith No More virou uma febre. Com a chegada da MTV ao Brasil, em outubro de 1990, a banda foi um dos primeiros fenômenos no qual a emissora teve “culpa”, graças a “Epic”, uma mistura de hip-hop, heavy metal e outros bagulhos. A legião de fãs só aumentou com a participação do grupo no Rock in Rio, em 1991. Além da já citada “Epic”, o álbum ainda trazia os sucessos “Falling to pieces”, “From out nowhere”, a instrumental “Woodpeckers from Mars”, a insana “Surprise! You’re dead!” e a versão de “War Pigs”, do Sabbath.

NEW ORDER, “TECHNIQUE”
Com o fim abrupto do Joy Division em 1980, provocado pelo suicídio de Ian Curtis, os membros remanescentes do grupo (Bernard Sumner, Stephen Morris e Peter Hook) criaram o New Order, convidaram uma tecladista (Gillian Gilbert) e tocaram a vida, gravando discos que progressivamente flertaram cada vez mais com a música eletrônica. Se “Broterhood” (1986) tinha entre suas faixas hits dançantes como “Bizarre love triangle”, foi em “Brotherhood” que o quarteto inglês abraçou em definitivo o estilo.

Considerado por muitos como seu melhor trabalho, o quinto álbum do grupo foi fortemente influenciado pela acid house que dominava a Inglaterra e, também, pelo período que passaram em Ibiza, na Espanha, balneário onde havia festa todo dia, com boates para todos os lados, álcool e drogas. Se pouco foi gravado por lá, o clima ensolarado foi fundamental para a maior parte das gravações, realizadas na terra natal no estúdio de Peter Gabriel.

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Por conta disso, “Technique” foi o primeiro disco do New Order a chegar ao topo das paradas inglesas, graças a músicas irresistíveis como “Round and round”, “Fine time”, o baixo irresistível de Peter Hook em “All the way” e “Mr. Disco”. Dá gosto de colocar no estéreo até hoje.

NINE INCH NAILS, “PRETTY HATE MACHINE”
Projeto-de-um-homem-só, o perturbado e genial Trent Reznor, o Nine Inch Nails tem um dos álbuns de estreia mais impressionantes do final dos anos 80. Reznor gravou praticamente todos os instrumentos de “Pretty hate machine”, a exemplo dos rascunhos das canções que registrou nos horários vagos do estúdio em Cleveland em que trabalhava como zelador. O resultado desse esforço obsessivo foram mais de três milhões de cópias vendidas, tornando o trabalho um dos primeiros álbuns independentes a conseguir essa marca nos Estados Unidos.

Ainda que alguns comparem “Pretty hate machine” com o que o Ministry fazia na mesma época, o trabalho de NIN tinha personalidade própria ao mesclar metal, batidas eletrônicas, synthpop e outros baratos, acrescidas pelas letras sempre angustiadas de Trent Reznor. Foi daí que o mundo ganhou músicas como “Head like a hole”, “Down in it”, “Sin” e “Terrible lie”, entre outras, que anteciparam o progressivo embrutecimento da sonoridade do Nine Inch Nails, ouvido no EP “Broken” (1992) e, principalmente, no clássico “The downard spiral” (1994).

DE LA SOUL, “3 FEAT HIGH AND RISING”
O álbum de estreia do De La Soul é mais que um negócio bom demais de se ouvir; foi, ainda, um trabalho radicalmente fora da curva quando pensamos a respeito dos temas das canções. Enquanto a maior parte dos artistas da época colocava e retorcia o dedo na ferida de questões como racismo, violência policial, pancadaria, drogas, tiroteio e coisas do gênero, “3 feat high and rising” era musicalmente solar e tinha letras com mensagens positivas de paz e harmonia. Havia uma ou outra música com temática mais pesada, ou sobre sexo e a visão sobre si próprio, mas o otimismo é o que dava o tom no álbum.

Assim como “Paul’s Boutique”, dos Beastie Boys, o debut fonográfico do De La Soul trazia um “quem é quem” de referências e samples, incluindo Johnny Cash (cujo verso de uma de suas músicas, “Five feet high and rising”, inspirou o título do álbum do grupo), LL Cool Jay, Steely Dan, Ben E. King e Funkadelic, entre outros. Músicas como “Me, myself and I”, “Jenifa taught me (Derwin’s revenge)”, “The magic number”, “Eye know”, “Tread water”, “Ghetto thang”, “Buddy” e “Change in speak” continuam irresistíveis.

808 STATE, “90”
O segundo álbum do 808 State chegou no auge da acid house, subgênero da música eletrônica do qual os ingleses de Manchester podem ser considerados um dos mais importantes representantes. Mas se quiser dizer que é “apenas” techno, dance music ou música eletrônica, tudo bem: o trabalho continua sendo genial. “90” tem a clássica “Pacific 202”, cujo videoclipe teve boa rotação na MTV brasileira, mas também havia a matadora “Cobra Bora”, “808080808”, “Sunrise”, “Ancodia” e “Magical dream”.

Com seus beats, grooves, samples e batidas ainda atuais, Graham Massey e Andrew Barker integram o time dos precursores de um movimento musical que teve, na década seguinte, nomes como Chemical Brothers, Apollo 440, Banco de Gaia, Roni Size, Orbital, The Crystal Method, Goldie e tantos outros, em subgêneros como big beats, jungle, trance, trip hop, ambient e drum’ n’bass. Poucas vezes o termo “música do século XXI” fez tanto sentido.

Júlio Black

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