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“Marvels”: 25 anos de um clássico da nona arte

Por Júlio Black

19/06/2019 às 08h30 - Atualizada 18/06/2019 às 15h15

Oi, gente.

Histórias em quadrinhos, assim como filmes, séries, livros, novelas, músicas, podem envelhecer mal. Motivos não faltam: narrativa que se torna datada, tramas que perdem a força ou relevância, a arte, o roteiro, cronologia que ganha reboot ou retcon. Por outro lado, há quadrinhos que não importa o passar das décadas, reboots ou retcons, a cronologia: seguem como verdadeiros clássicos, e até mesmo resgatam do limbo arcos e sagas que muitos não lembravam ou sequer conheciam.

Pois a minissérie “Marvels”, lançada há 25 anos nos Estados Unidos, é um desses clássicos que envelheceram bem, que seguem relevantes, merecem continuar a levar o selo de clássicos dos quadrinhos. O tipo de HQ a servir de referência para apresentar a arte sequencial a novos leitores, que voltamos a ler na última semana com o mesmo prazer de anos e anos atrás.

Tudo começou com o ilustrador Alex Ross, então um artista pouco conhecido no mercado. Ele tinha a ideia de criar uma série especial que mostrasse o surgimento de alguns dos principais heróis da Marvel, partindo do Tocha Humana original, em 1939, até a morte de Gwen Stacy, em 1974. Ao conversar com o roteirista Kurt Busiek, a trama ganhou um repórter que seria parte desses acontecimentos; mas quem ajudou a dar a amarração final no que viria a ser “Marvels” (que originalmente se chamaria apenas “Marvel”) foi o então editor-chefe da Casa das Ideias. Tom DeFalco sugeriu que a minissérie se concentrasse em alguns poucos protagonistas por edição, sem histórias originais, apenas recontando o que já conhecíamos pelo olhar de uma pessoa comum, espectador da história acontecendo diante de sua câmera: o fotógrafo Phil Sheldon.

Foi assim que “Marvels” ganhou suas quatro edições, mostrando o assombro, deslumbramento, medo,dependência, apoio, revolta, impotência, desconfiança, inveja, (in)gratidão, preconceito da humanidade em relação ao que Sheldon chamou de “Maravilhas” (“Marvels”, em inglês). Muitos desses sentimentos, mas não todos, acompanharam o fotógrafo e poderiam muito bem ser os nossos se os super-heróis existissem no mundo real.

Porém, mesmo nos momentos de dúvida, Phil Sheldon sempre viu os vigilantes uniformizados como figuras que mereciam o reconhecimento por se dedicar a defender aqueles que sequer conheciam, e com o passar do tempo podemos ver como a postura do ser humano comum em relação aos heróis o tornou uma pessoa amarga e pessimista quanto a seus semelhantes.

A escolha de colocar o fotógrafo como protagonista da história se mostrou acertada, e não são poucas as vezes em que nos colocamos na mesma posição que ele, tendo que olhar para cima, para o céu, enquanto as “Maravilhas” salvavam Nova York da ameaça da vez. A primeira edição, que destaca o surgimento do Tocha Humana e os confrontos com Namor – sem esquecer do Capitão América – se divide entre o assombro e desconfiança decorrentes dos avanços científicos com o deslumbramento da chegada dos primeiros super-heróis.

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A segunda edição pula cerca de duas décadas, chegando ao início dos anos 60, e tem como tema principal o preconceito, o ódio e medo do que é desconhecido. Não à toa, é a edição dedicada ao surgimento dos mutantes, tendo os X-Men como uma ameaça aos olhos do ser humano normal. É a oportunidade de refletir sobre o quanto uma multidão pode se tornar cega de ódio em relação ao que é diferente, o chamado “efeito manada” que atinge até mesmo o protagonista.

O terceiro número, com a chegada de Galactus e seu confronto com o Quarteto Fantástico, mostra a relação de amor-ódio-impotência-dependência-admiração-inveja que a humanidade tem com os super-heróis. Por fim, a quarta edição é a mais amarga de todas: enquanto seus pares tratam os vigilantes com algo que vai além do mero desprezo – principalmente o Homem-Aranha -, Phil Sheldon tenta mostrar que o Cabeça de Teia não é um vilão, e por conta disso acompanha de perto a dramática morte de Gwen Stacy.

São vários os argumentos para colocar “Marvels” entre os clássicos. O primeiro deles foi a arte pintada de Alex Ross: são verdadeiras obras-primas que imprimem à minissérie um realismo fotográfico raramente visto nas HQs, e que deslanchou uma série de obras no mesmo estilo – dos quais o principal destaque é “O Reino do Amanhã”, da rival DC Comics, também desenhada pelo artista. A capa da edição #2, em que o Anjo dos X-Men sobe aos céus com uma garotinha mutante nos braços, ignorando uma multidão raivosa, é linda de doer.

A primeira imagem de Galactus no terceiro número, assustadora e cheia de luz em um “contra-plongée” cinematográfico, é fabulosa, mostrando a insignificância do ser humano diante de algo maior – numa escala ainda mais impressionante que a do momento em que Phil Sheldon mostra o Gigante em ação, ignorando as pessoas abaixo dele. Num momento em que os quadrinhos sofriam com ilustradores que desenhavam personagens com claros problemas de proporção e perspectiva, em posições impossíveis e revoltantes exposições do corpo feminino (seios maiores que uma cabeça e metro e meio de pernas, mais derrières abundantes), a arte realista de Alex Ross mostrou que os quadrinhos poderiam voltar à sua essência.

Outro motivo, claro, é o roteiro de Kurt Busiek, que não só contou uma grande história como também realizou uma fabulosa homenagem a tudo que a Marvel havia feito até então. E para isso foi preciso um trabalho obsessivo de pesquisa, não apenas figurino, automóveis, coisas de época. Trata-se de uma verdadeira imersão no Universo Marvel para conectar histórias que se desenrolavam em paralelo. Por exemplo, descobrir que a Mulher Invisível e o Senhor Fantástico se casaram no mesmo dia em que os Sentinelas atacaram os X-Men pela primeira vez. Até os jornais mostrados nas mãos dos personagens têm a ver com fatos que acontecerem ao mesmo tempo em outras HQs.

Além disso, “Marvels” não deixou de ser um alívio, um sopro de esperança, numa época terrível para as HQs, que sofriam o inesperado efeito negativo de clássicos como “O Cavaleiro das Trevas” e “Watchmen”. A moda nos anos 90 era o “sombrio e realista”, fazer todos os heróis se transformarem em psicopatas em potencial. Quase um “efeito Rob Liefeld”, que tinha na então emergente Image Comics um “mal exemplo” a ser seguido – e que quase afundou a Marvel.

Mais de um quarto de século depois de seu lançamento, “Marvels” é republicada em incontáveis edições comemorativas, que não são difíceis de se encontrar na internet. Enquanto outras histórias são eclipsadas pelo manto do esquecimento ou do já citado “envelheceu mal”, a minissérie de Kurt Busiek e Alex Ross permanece como um dos momentos mais emocionantes da nona arte para novos e antigos leitores.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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