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‘Novo Zico’ e pirotecnia

Por Renato Salles

23/02/2018 às 06h00 - Atualizada 23/02/2018 às 07h53

A carência do futebol brasileiro por ídolos tem jogado contra nosso próprio esporte. A necessidade de se incensar jovens ainda em formação, e a eterna busca por um “novo Neymar” – que já foi o “novo Robinho”, que também já foi o “novo Pelé” – já vitimou algumas jovens promessas, alçadas ao status de ídolos da noite para o dia sem ainda terem feito nada de relevante em campo ou mesmo ter formado seus caracteres (é estranho, mas este é o plural de caráter). A bola da vez é o flamenguista Vinícius Júnior, que já chegou a ser alcunhado como velho clichê de o “novo Zico”.

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Matéria do globoesporte.com veiculada nesta quinta (22) gastou mais de 4 mil caracteres (aqui o uso da palavra já não é tão estranho) para fazer uma comparação entre Vinícius Júnior, Neymar, Philippe Coutinho e Gabriel Jesus. Mais precisamente, colocar lado a lado o número de gols marcados pelos quatro atacantes em seus primeiros jogos profissionais. Esforço matemático hercúleo para encontrar um indicador de que a joia rubro-negra supera seus compatriotas já consagrados. Vinícius Júnior tem oito gols em seus 1.500 primeiros minutos em campo contra sete de Neymar e Gabriel Jesus. Já Coutinho, coitado, tem apenas cinco em seus 3 mil minutos iniciais no futebol profissional.

O que isto quer dizer? Patavinas! Não passa de uma coletânea de números encaixada em uma lógica preestabelecida que desconsidera contextos, adversários, gerações e torneios. Pirotecnia pura para caçar cliques e compartilhamentos nas redes sociais com o velho sensacionalismo. Quem ganha com isto? Certamente não é o futebol brasileiro e muito menos o próprio Vinícius Júnior, cada vez mais obrigado a ter desempenho acima da média, sob o risco de ir de “novo Zico” a “novo Negueba”, como tanto gostam os práticos da cultura da hipérbole. Não à toa o Real Madrid, que já comprou a jovem promessa, tem demonstrado preocupação e sinalizou pressa em levar o jogador para terras espanholas o quanto antes e finalizar por lá o processo de formação do aspirante a craque.

Renato Salles

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