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Navegar não é tão preciso

Por Renato Salles

24/05/2019 às 07h00 - Atualizada 24/05/2019 às 07h27

Uma coisa que sempre me afligiu é aquele relógio em que o ponteiro dos segundos corre intermitente, sem sobressaltos. Sabem qual é? Aquele, que não tem o respiro do “tique-taque” e corre em círculos, acelerado em direção ao futuro. Para mim, aquela é uma alegoria cruel da realidade imutável de que estamos em uma eterna viagem no tempo, com passagem só de ida. Tudo passa e passa muito rápido. Mas tem hora em que precisamos refrear. Peço clemência por discordar de Fernando Pessoa e dizer que, por vezes, navegar não é preciso e é preciso viver.

Digo isto por ter sido traído pelo tempo em uma coisa besta durante a semana. Coisa besta mesmo, mas foi quando eu percebi que estava sendo esmagado pela inércia enquanto o trem do tempo corria apressado em direção ao futuro. E meios aos escândalos, enfrentamentos e polêmicas diárias em que nosso país se meteu e outras tretas cotidianas, sempre tenho no futebol minha válvula de escape. Por 90 minutos, esqueço da vida e entro em campo de mãos dadas com meu time. O tempo para pelo hiato de uma hora e meia, em que jogo, sorrio e choro por uma vitória que nem sempre vem.

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Para mim, o futebol é quase religião, no sentido de que ele faz com que eu consiga me “religar” comigo mesmo e com minhas paixões e meus sentimentos. Sempre sei de cor o calendário de jogos, a hora do culto. Mas esta semana, em meio ao mundo e ao dia a dia, me confundi. Passei a quarta-feira inteira tenso, com um jogo que só seria na quinta-feira. Coisa besta. Besta mesmo. Mas que me fez repensar se precisamos, de fato, navegar, assim, tão rápido pela vida.

Foi quando eu parei para respirar. Distensionar. Passei o dia fazendo piadas bobas com os amigos de infância. A brincadeira foi contagiante. Todos relembramos saudosos das peladas de infância. De amores de infância, também. Por um momento, voltamos a ser o time da rua. Ficamos mais leves. Desaceleramos. Quase nem pensei no jogo que aconteceria à noite, pois consegui sair da inércia. Não estava mais esmagado pela gravidade do mundo. Às vezes, o que só precisamos para ser feliz é de umas besteiras. Tipo ser cordial com o colega ao lado ou ter a audácia de parafrasear, de novo, o maior poeta da língua portuguesa. É preciso viver. Navegar não é tão preciso assim.

Renato Salles

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